Pt:Ictus (Livro)

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Notas:

  • Esta é a minha primeira tentativa de escrever ficção científica, de forma que peço a condescendência do caro leitor.
  • As unidades de medida (espaciais, temporais, ou quaisquer outras) usadas no texto são sempre as usadas na Terra (primeiro planeta da Federação a unificar seu sistema de medidas baseando-se em padrões confiáveis, depois adotado em todos os sistemas federados), a menos que haja especificação em contrário.

Contents


Capítulo I

“Acho que vamos precisar usar o plano B, tenente”, disse o capitão, tentando, sem grande sucesso, esconder sua apreensão.

“Nós temos um plano B, capitão?”, perguntei eu, com afetada surpresa, mas ele nem se moveu.

É claro que não havia. Todos os planos de vôo de todos os cruzadores da Frota eram meticulosamente elaborados, sempre levando-se em conta todas as eventualidades possíveis, especialmente as mais, digamos, indesejáveis. Além disso, normalmente, eu não ousaria questionar o capitão Lucek; não apenas ele era tido como a personalidade mais difícil dentro de toda a Frota, mas também como o mais capaz dentre todos os oficiais do Exército Federado (corria o boato de que ele só não era ainda o Marechal-do-Espaço porque os generais não tolerariam a idéia de serem subordinados a alguém mais jovem que eles).

Mas questionei-o, assim mesmo; afinal, as vidas de centenas de pessoas, tanto dos tripulantes da Ictus quanto da Plataforma Astrid-2, estavam em jogo, e aquele não era o momento de querer manter as aparências.

A idéia um tanto ousada (para não qualificá-la de irresponsável, como certamente fariam os Marechais) de usarmos o subespaço como um “atalho” fora dele; e eu, como oficial de navegação da Ictus, mantive-me calada, apesar de ser meu dever lembrar-lhe dos riscos antes de executar a ordem. “Não é hora de continuar calada”, pensei, “especialmente porque foi meu o erro de cálculos que causou este incidente.”

“Nós temos um plano B, capitão?”, repeti, sabendo que o risco em que eu incorria era infinitamente menor que aquele do qual precisávamos escapar.

“Vou pensar em alguma coisa”, respondeu ele, sem me olhar. “Coloque toda a tripulação em alerta de combate, tenente, e explique nossa situação à Astrid-2.”

Tão logo dei-lhe as costas para ir cumprir a ordem, ele disse, “Diga aos operadores que nós ficaremos imensamente gratos se eles tiverem alguma idéia.”

• • •

A Ictus era um cruzador interestelar da nova classe DW-C, isto é, possuía, além dos típicos motores de deslocamento espacial que equipavam todas as naves da Frota, um motor de dobra e um de subespaço, antes conhecido como gerador de wormholes — que os tripulantes costumavam chamar de abridor —, bem como um sistema de escudos e armamentos projetados para batalhas em altitude orbital. Naquela viagem, entretanto, desempenhava, irregularmente, a função de um mero cargueiro.

Vínhamos de β Cygni para α Aciei, trazendo uma providencial “ajuda” para uma guerra de escala global que assolava, havia uma década terrestre, o terceiro planeta do sistema, α Aciei 3 — comumente chamado de Terra, apesar das controvérsias entre os membros do Conselho Astronômico da Via Láctea.

Ninguém do Alto Comando da Frota sabia do exato teor daquela missão — e muito menos suspeitavam de quem a solicitara. Evidentemente, não foi sem uma ponta de desconfiança dos Marechais que recebemos autorização para partir para uma região tão pacífica da Federação com um cruzador do porte da Ictus. Havia, ainda, um agravante: nosso “contratante” solicitou — ou, antes, exigiu — que chegássemos a α Aciei 3 dentro de seis meses terrestres, o que tornaria nossa viagem ainda mais irregular: percorrer 385 anos-luz em tão pouco tempo com um cruzador de guerra, fora de sua função. Mas todos esses “obstáculos” foram superados com uma boa e velha troca de favores — uma das poucas coisas que não mudaram na humanidade ao longo de tantos e tantos séculos.

O método, aliás, teria de ser repetido em α Aciei 3 — naves de guerra do tamanho da Ictus só muitíssimo raramente pousavam nos chamados “planetas brancos” (equivalentes, em escala galáctica, ao que uma pequena nação da Terra, chamada Suíça, fora nos tempos antigos); ao contrário, pelo procedimento padrão, nosso cruzador deveria ficar na estação orbital Astrid-2, e precisaríamos de justificativas verdadeiramente impressionantes para conseguirmos uma autorização para adentrar a atmosfera e pousar num planeta neutro com um cruzador de guerra.

Enfim, o “plano A” do capitão Lucek surgiu no princípio da viagem, apenas um mês após a nossa partida de β Cygni. Estávamos apreensivos, desejando que a Frota, compreensivelmente curiosa em relação aos nossos motivos, não nos monitorasse toda a viagem; assim, ele sugeriu, ou melhor, decidiu, que valeria a pena correr o risco de chamarmos muito mais atenção usando o ainda experimental motor de subespaço para reduzir drasticamente a duração da viagem, com a vantagem de, no seu entender, reduzirmos também o tempo durante o qual poderíamos ser “escutados” pela Frota.

Calada, pois, ignorei as inúmeras incertezas inerentes às viagens pelo subespaço, e abri um wormhole da nossa posição atual até a distorção espacial causada pela massa da Terra — procedimento complexo que eu já havia realizado com êxito inúmeras vezes nos simuladores da Frota, mas que nunca havia feito no universo real —, e terminei por cometer um grave erro, que agora poderia custar as vidas de centenas.

Capítulo II

Eu agira como se ignorasse as enormes margens de erro com que os atuais instrumentos de deslocamento no subespaço obrigam pilotos e cientistas a trabalhar — em outras palavras, eu, irresponsavelmente, contara com um golpe de sorte e ajustara as coordenadas do motor de subespaço para um ponto próximo demais da atmosfera de α Aciei 3. Assim, graças a mim, estávamos em rota direta de colisão com a estação espacial Astrid-2, uma das maiores já construídas, tripulada por pelo menos cinco centenas de pessoas, entre elas cientistas de renome interplanetário.

Na hipótese mais otimista, apenas resvalaríamos na estação e a tiraríamos de órbita — o que, com ainda mais otimismo, poderia ser consertado; mas, dados nosso ângulo de aproximação, nossa velocidade e, principalmente, o tamanho e a massa da Ictus — um cruzador de quase meio quilômetro de comprimento e milhares de toneladas de peso —, tudo levava a crer que a hipótese mais pessimista se confirmaria: bateríamos em cheio, e não só as duas tripulações seriam mortas, como tanto o cruzador quanto a estação despencariam na superfície do planeta, podendo matar outras tantas pessoas inocentes do meu erro.

Evidentemente, mover-se no espaço não é tão simples quanto mover-se num planeta, e infinitamente mais complexo seria mover uma massa tão descomunal numa janela de tempo tão reduzida quanto a que tínhamos — mas o capitão Lucek ainda tinha esperança, ou melhor, ainda temia pela própria vida e pela própria reputação, e não queria terminar daquela forma, causando a morte de quase mil pessoas numa operação absolutamente ilegal.

“E então, tenente, o que diz a estação?”

“Parece que deflagramos uma onda de pânico por lá, capitão. O comandante da estação procurou manter a calma como pôde, e pediu-nos alguns minutos para fazer os devidos cálculos com a equipe de navegação — e”, hesitei, “sugeriu que fizéssemos o mesmo.”

O capitão não respondeu. Em vez disso, postou-se diante dos instrumentos de navegação e analisou-lhes as leituras, praguejando em voz baixa numa língua incompreensível. Então voltou-se para mim abruptamente, e perguntou:

“Tenente Aardia, você certamente se lembra de sua última instrução de vôo, não?”

“Eu não poderia esquecer jamais aquele dia, Capitão Lucek”, respondi, antes de perceber aonde ele queria chegar. Quando compreendi, arregalei meus olhos em vivo espanto. “O senhor não espera que eu…” Não pude terminar a frase.

“Naquele dia, tentente, você nos colocou em situação semelhante e conseguiu escapar — e foi a sua habilidade naquela situação extrema que a pôs aqui, no comando da ponta-de-lança da Frota. Pois bem, é hora de mostrar mais uma vez o que sabe.”

“Mas…”

“Mas?! Há muito mais em jogo aqui do que naquele dia, Tenente Aardia! Nós não estamos num simulador, e não temos tempo!”

Eu sabia que não adiantaria dizer que eu sabia das nossas condições e que seria excesso de ousadia confiar a mim a responsabilidade de tentar tirar-nos daquela situação; assim, outra vez calei-me, embora a ironia fosse apropriada: se eu causara aquela iminência de desastre, justo seria que eu a resolvesse. Limitei-me, pois, a um “sim, senhor” sem entusiasmo, e sentei-me em minha cadeira, distribuindo ordens aos demais oficiais de navegação, que procuravam — sem sucesso — disfarçar sua tensão.

“Tar-ki, há tempo para uma translação no subespaço?”, perguntei.

“Não, senhora. A janela de segurança fechou-se há vinte segundos.”

Proferi uma imprecação entredentes, porque, agora, nossa única alternativa era a mais difícil: desviar a rota da Ictus num tempo exíguo, com praticamente nenhum espaço de manobra. Exatamente a mesma situação em que me coloquei na minha última instrução de vôo.

“Então quero metade da força nos motores dianteiros inferiores, Tei’sah, e um quarto nos traseiros inferiores! E cuide para que os lastros estejam posicionados para um giro de três, nove, quatro e meio! Já!”

“Sim, senhora!”, respondeu ele, e, dali a alguns instantes, “TDI 0.5, TTI 0.25, L 3–9–4.5! Feito!”

“Ótimo”, disse eu, por força de expressão. Cabia a mim, agora, dosar a potência dos motores e torcer para que a Ictus se desviasse a tempo.

Mas isso não foi possível.

Capítulo III

Nunca fui uma pessoa conformada: a única coisa que me faz acreditar que algo não pode ser evitado é vê-lo acontecendo — e, daquela vez, não foi diferente.

Após uma confirmação de protocolo, levantei uma tampa plástica de segurança e pressionei, com um soco, um botão amarelo à minha esquerda. Imediatamente, uma voz feminina se fez ouvir em todo o cruzador:

“Atenção! Processo de desacoplagem iniciado. Atenção! Evacuar a área de desacoplagem. Atenção! Processo de desacoplagem...”

O capitão Lucek voltou-se para mim vivamente, cenho franzido em fúria, e gritou:

“Tenente Aardia! O que a senhora pensa que está fazendo?”

“Não nos resta outra opção, capitão!” Virei-me para o esterano: “Volte ao seu lugar! Precisamos de estabilidade, agora!”, respondi, tentando aparentar calma.

Ele redargüiu: “Senhora, com todo o respeito, isso pode nos custar metade da Ictus, senão toda ela! Não haveria...”

“Respeito?! Agora não é hora para falar em respeito! Estou tentando tirar-nos daqui viv...”

Não pude terminar a frase; nesse momento, a nave sacudiu fortemente, jogando-nos todos no chão.

« continua »

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